Profª. Drª. Maria de Lourdes de Andrade Massara

A cárie dentária é uma doença, cuja primeira expressão clínica são lesões de mancha branca no esmalte dental, em decorrência do processo de desmineralização. Se esse processo continua, as lesões evoluem se tornando cavidades, que podem ir aumentando, atingindo as camadas mais internas do dente. Nessa fase da doença, o paciente já necessita de um tratamento restaurador, com o objetivo de vedar a cavidade, para paralisar o processo e reconstituir anatomicamente a área perdida do dente.

Tradicionalmente, esse tratamento restaurador prevê a remoção completa do tecido cariado, dentro da cavidade, com o uso de instrumento rotatório (o famoso e temido motorzinho!). Como a porção mais profunda dessa cavidade é sensível à instrumentação, a anestesia é exigida, especialmente nas lesões mais profundas.

No entanto, nas últimas décadas, o aprofundamento dos estudos relativos à carie dentária revelou que não é mais necessária a remoção total do tecido cariado para que o processo de destruição seja interrompido e paralisado. Como a massa de bactérias, responsável pela destruição se concentra na camada superficial da cavidade, a proposta hoje é que o profissional seja menos invasivo, retirando apenas o tecido dental mais amolecido dentro da lesão cavitada, o que pode ser feito apenas com o uso de instrumentos manuais no formato de pequenas colheres (curetas). Se essa massa bacteriana é removida e o dente é fechado com material restaurador adequado, as poucas bactérias residuais que permanecem no local não são capazes de dar continuidade ao processo. O interessante é que a remoção dessa massa bacteriana superficial é indolor, o que dispensa o uso de anestesia. 

Imaginem, então, a possibilidade de fazer um tratamento restaurador confiável e de altíssima qualidade, numa criança ou num adolescente, sem a obrigatoriedade do uso de anestesia e de motor! Isso já uma realidade no Brasil, com a técnica do TRATAMENTO RESTAURADOR ATRAUMÁTICO (ART), que consiste basicamente na curetagem da lesão cavitada, removendo-se somente o tecido cariado superficial, altamente infectado e amolecido pelas bactérias causadoras do processo de destruição dental (figura 1). Após essa limpeza, a restauração é feita utilizando-se um material estético adequado, capaz de vedar a cavidade para impedir a entrada de novas bactérias, dificultar a sobrevivência daquelas poucas que permaneceram na camada mais profunda da lesão e paralizar o processo carioso (figura 2). 

TRATAMENTO RESTAURADOR ATRAUMÁTICO

O ART é uma técnica de baixo custo, acessível, rápida, menos invasiva, que não provoca desconforto e favorece a adaptação comportamental do paciente.

A Associação Brasileira de Odontopediatria reconhece o ART como uma abordagem sustentada por sólidas bases científicas e o recomenda para qualquer paciente, evidenciando sua importância particularmente no atendimento clínico de crianças menores ou com necessidades especiais, que ainda não apresentam maturidade suficiente para se submeterem a procedimentos clínicos invasivos. Sua aplicação está indicada também para crianças e adolescentes que apresentam medo, fobias, ansiedade, por vezes advindas de experiências odontológicas negativas anteriores, quando o tratamento restaurador tradicional foi utilizado.   

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